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Medo dos escândalos
Ricardo Gondim Rodrigues
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Morro de medo a cada escândalo
que sacode o Brasil. Ao saber das notícias vou logo indagando: – Meu Deus,
será que há algum evangélico envolvido? A lista de escândalos é antiga e
grande. Suficiente para incontáveis sobressaltos. Desde a última
Constituinte, quando diversos parlamentares evangélicos abertamente
negociaram seus votos em troca de benefícios, começou nosso enrubescimento.
Na votação dos cinco anos para estender o mandato do então presidente,
outros foram seduzidos por concessões de rádio. O seqüestro a filha do
Silvio Santos veio com uma intrigante coincidência: tanto a seqüestrada como
seqüestrador eram evangélicos. Ele desviado e ela membro ativa de uma
comunidade. Recordo-me do meu constrangimento quando assisti o principal
telejornal do país mostrar cenas de um pastor pedindo maldição de Deus sobre
um técnico de futebol que estaria maltratando um jogador evangélico. Como
tem sido perturbador saber que há evangélicos envolvidos com planos de saúde
falsos, consórcios fajutos para compra de casas e carros. Mudei do rubor
para a palidez com a denúncia de uma escola de teologia prometendo diplomas
sem que houvesse aprovação do Ministério da Educação e Cultura. O Brasil é
tão pródigo em casos feios, que freqüentemente me encontro tenso imaginando
qual é o próximo evangélico sendo investigado.
Entendo que os evangélicos, com mais presença na sociedade aparecerão mais
na mídia, com exemplos bons e ruins. Os escândalos em si constrangem, mas
não surpreendem, pois o próprio Jesus afirmou que é mister o surgimento
deles. A história do cristianismo não é só marcada com o sangue dos mártires,
mas também com testemunhos trágicos de corrupção e maldade. O que mais causa
espanto é que os próprios evangélicos não se antecipem nessas denúncias.
Falta-nos um jornalismo investigativo. Não possuímos bons meios de
comunicação que denunciem profeticamente os males que nascem da própria
comunidade evangélica.
Quando Adolf Hitler subiu ao poder alavancado por um partido truculento, o
diário de Munique mobilizou uma equipe de jornalistas destemidos e denunciou
os atos violentos e arbitrários dos nazistas. Quando o regime militar se
instalou no Brasil, alguns jornais, entre eles a Folha de São Paulo,
tentavam incansavelmente burlar a censura para denunciar o autoritarismo do
regime. Quando Richard Nixon tentou esconder o escândalo da invasão do
partido democrata no edifício do Watergate, Bob Woodward e o Washington Post
não lhe davam tréguas mostrando as entranhas apodrecidas do poder executivo
norte-americano. Quando Fernando Collor e seus asseclas quiseram fazer da
presidência da república uma organização mafiosa, as revistas Isto É e Veja
se revezavam com furos de reportagem capitaneando um furor unânime: eles
romperam as fronteiras éticas mais flexíveis da política brasileira. Israel
tentou impedir os jornalistas e repórteres das principais agências de
notícias de cobrirem os eventos da recente guerra, pois temiam serem
expostos em sua sanha de destruir o povo palestino, invadindo cidades e
matando civis indiscriminadamente.
A liberdade de imprensa e principalmente o jornalismo investigativo
funcionam como uma espécie de corregedoria do grande público. Quando remexem
os porões e os bastidores sujos, geram medo nos desonestos e dão ao público
a sensação de que os valores éticos serão obedecidos. Toda e qualquer
sociedade necessita de veículos que fiscalizem as suas ações e que seja
livre para publicar e expor o que acontece de internamente. A liberdade de
imprensa é um dos pressupostos mais sagrados da democracia.
Infelizmente, a imprensa evangélica não conseguiu ainda produzir um
jornalismo isento, independente e sério. Publicam-se boas revistas de cunho
inspirativo e reflexivo (a Ultimato, por exemplo). Escrevem-se boletins
teológicos também com boa densidade. Já circulam, inclusive, periódicos
semanais com notícias, receitas de bolo, moda, e até fofoca dos crentes. Mas
faltam-nos jornalistas proféticos e pior, falta espaço para eles se
expressarem.
A igreja, como toda instituição social, necessita ser fiscalizada, cobrada e
investigada. Lamentavelmente os evangélicos convivem com um espírito
corporativista imenso. Acredita-se que denunciar um irmão é um crime
hediondo. Tememos citar nomes. Quando a teologia da prosperidade começou a
se enraizar no Brasil, publicou-se um livro que citava, já na capa, os
responsáveis por essas aberrações doutrinárias. O autor sofreu ostracismo e
a editora, duríssimas críticas. Entretanto, a Bíblia contém vários exemplos
de pessoas expostas quando cometeram erros morais ou doutrinários. Paulo não
hesitou em chamar a atenção de Pedro quando se mostrou incoerente em seu
comportamento diante dos Fariseus e dos gentios – Gálatas 2. 11. Também
afirmou que a linguagem de Himeneu e Fileto corroía como um câncer, pois
pregavam que a ressurreição já se realizou – 2Tm 2.17; expôs a Demas que
tendo amado o presente século, o abandonara – 2Tm 4.10; e não temeu revelar
o nome de Alexandre, o latoeiro, que lhe causara muitos males – 2Tm 4.14.
Há uma idéia errada que os erros da igreja não podem ser publicados sob o
risco de perder o testemunho na sociedade. Mas o que é mal feito acaba sendo
conhecido de qualquer maneira. Cristo prometeu que tudo o que estiver
escondido será alardeado de cima dos telhados. Deus então levanta os
profetas seculares e a igreja perde a oportunidade de mostrar sua
intolerância com o pecado.
Será que nunca teremos nenhum meio de comunicação com coragem de se
antecipar aos grandes escândalos que vez por outra nascem na igreja
evangélica? Criemos estruturas em nossas igrejas, denominações e,
principalmente nos seminários, para que Deus levante jovens jornalistas.
Carecemos de vozes com coragem de expor o maquiavelismo que usa de fins
legítimos para justificar meios indignos. Precisamos urgentemente de bons
escritores que relatem como acontecem os conchavos entre políticos
inescrupulosos e pastores iludidos pela adulação dos poderosos. Somente com
um jornalismo independente e sem patrulhamentos ideológicos saberemos o que
acontece nas tesourarias eclesiásticas e nos procedimentos contábeis das
grandes denominações.
As pedras clamarão se o juízo não começar na casa de Deus. Mas aí será tarde
demais. O ímpio escarnecerá e todos padecerão sob a mesma suspeita.
Padre Antônio Vieira dizia que a cegueira do juízo e do amor-próprio é muito
maior do que a cegueira dos olhos. “A cegueira dos olhos faz que não vejamos
as cousas; a cegueira do amor-próprio faz que as vejamos diferentes do que
são, que é muito maior cegueira”. O enorme crescimento evangélico brasileiro
gera um clima ufanista, porém um bom jornalismo poderia curar esse mal.
Se não curar, pelo menos teremos menos sobressaltos quando lermos o jornal
de amanhã.
Soli Deo Gloria.
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