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Quatro episódios e
muitas inquietações.
Ricardo Gondim Rodrigues |
Primeiro episódio.
A pastora Miriam Silva prometera algumas surpresas para o próximo culto. Na
data marcada uma pequena multidão superlotou o seu auditório em São Paulo.
Disputavam lugares até nos corredores. O ar pastoso do calor não inibia a
euforia que passava de pessoa para pessoa. Ondas de uma eletricidade
emocional causavam arrepios em todos. Cantaram-se alguns hinos; todos
convocando os crentes para uma batalha. De repente, as portas que ladeiam a
plataforma do templo se abriram e a pastora Miriam entrou. Vinha acompanhada
por alguns dos seus oficiais. Apareceu trajando um uniforme militar com
camuflagem e carregando uma baioneta pendurada no cinto. Marchou até o
centro, sempre rodeada de seus oficiais. Todos igualmente fantasiados. A
voltagem subia a cada hino que se cantava. De repente abriu-se mais uma
porta e seis homens surgiram carregando um caixão de defuntos nos ombros. Os
gazofilácios serviram de apoio para repousarem a urna funerária diante do
povo. Agora o frenesi emocional misturava-se à perplexidade. Tudo se
mostrava inusitado demais. A pastora Miriam sacou a baioneta e com ela em
punho começou a pregar o seu sermão. Culpava a cultura romana pelos
percalços da nação brasileira. Afirmou que somos pobres, vivemos no meio da
violência e estacionamos em nosso desenvolvimento devido ao “espírito de
Roma”. “Esse espírito”, continuou com a voz afetada, “nos ensinou a guardar
o domingo e batizar crianças. Temos que matar e esfaquear esse espírito, ele
não provém de Deus”. Depois de mais de meia hora condenando o “espírito de
Roma”, convocou a todos no auditório a verificarem se suas próprias vidas
também não estariam contaminadas com o tal espírito. Abriram o caixão e as
pessoas trouxeram um papel escrito, indicando de que maneira estavam
maculados por Roma. Quando se aproximavam do caixão, enxergavam-se num
espelho estrategicamente colocado no lugar onde repousaria a cabeça do morto.
Depois que todos depositaram seus pedaços de papel naquele móvel sinistro,
repuseram a sua tampa e esperaram o próximo movimento da pastora. Ela desceu
com a baioneta em posição de ataque e logo começou a esfaquear o caixão com
força. Lancetava com tanto furor que lascas de madeira voavam pelo espaço.
Ao terminar com a sua coreografia, deixou claro para o seu auditório que
aquilo não fora apenas uma encenação. Eles haviam presenciado um “ato
profético”. Prometeu que depois daquele evento, Deus reverteria a sorte do
Brasil.
Segundo Episódio.
Minha secretária anunciou que o Alexandre Souza já chegara. Pedi então que
ele entrasse em meu escritório, pois queria um aconselhamento pastoral.
Aproximou-se cabisbaixo e me encarou apenas de soslaio, embora apertasse
minha mão com firmeza. Notei logo sua timidez. Calculei sua idade por volta
dos 28 anos. Os cabelos bem aparados e penteados para a esquerda chamavam a
atenção pela negritude. Pedi que Alexandre se sentasse. Iniciei nosso
diálogo procurando deixá-lo mais à vontade. Ofereci um copo d’água, que
aceitou sem esboçar nenhuma emoção. Achei-o muito quieto. Pensei na
dificuldade daquele aconselhamento. Imaginei que gastaria a maior parte do
tempo perguntando e ouvindo meras respostas monossilábicas. Ledo engano.
Logo que bebeu o primeiro gole, Alexandre me encarou e perdeu toda timidez.
– Pastor, começou sem gaguejar, faço parte da igreja ‘X’ aqui em Fortaleza.
Há dois anos estou endemoninhado. – Vim aqui porque preciso de libertação,
emendou. Mostrei-me surpreso: - Endemoninhado? Você está em pleno controle
de suas faculdades mentais, emocionalmente equilibrado e com um semblante
tranqüilo. O que lhe leva a crer que está endemoninhado?
Sua resposta me deixou ainda mais perplexo. – Todas as sextas-feiras eu vou
ao culto de quebra de maldições em minha igreja e faz dois anos que eu caio
tomado por demônios em todos os cultos. Pela voz não parecia indignado,
apenas cansado. – O bispo põe a mão sobre minha cabeça e eu fico agoniado,
tenho vontade de tirar a mão dele de cima de mim. É nesse exato momento que
acontece... – O quê? Interrompi. – Fico nervoso, com uma aflição muito
grande. Quero tirar a mão do bispo de cima de mim. Acabo caindo no chão. Lá
me dizem que essa aflição é demoníaca.
Questionei-lhe porque o bispo não conseguia libertá-lo totalmente, já que
sua possessão se manifestava semanalmente há dois anos. Explicaram-lhe que
esse tipo de demônio é muito esperto. Quando o expulsavam da mente, corria
para o espírito. Do espírito se escondia na vontade e da vontade pulava para
a alma. Desta forma, continuava cativo mesmo já batizado e mesmo havendo
terminado o seu curso sobre plenitude do Espírito Santo. Mostrei-lhe que não
era possesso, apenas um inocente útil. Um joguete nas mãos dos líderes que
precisavam de pessoas sugestionáveis para valorizar os cultos de libertação
da sexta-feira.
Terceiro Episódio.
Roberto Pires pastoreia uma igreja no Rio de Janeiro. Certo dia, resolveu
agir, indignado com a violência da cidade. Precisava fazer alguma coisa para
reverter a incompetência crônica da polícia. Não cogitou ações políticas,
nem imaginou um programa na igreja que melhorasse a educação cívica de seus
membros. Sequer lhe passou pela cabeça participar de manifestações ou
passeatas exigindo melhor segurança pública. Os óculos teológicos e
ideológicos com que enxerga a sua realidade não lhe permitem essas
cogitações. Assim, orava em um culto quando lhe veio uma idéia que
considerou a mais genial de sua vida - tão genial que ele a relatou por anos.
Correu para o seu escritório, abriu a Lista Telefônica e nervosamente
procurou pelos “agás”; queria “helicópteros”. Desejava saber quanto custaria
alugar um desses beija-flores mecânicos. Anotou os valores e levou sua idéia
para o culto daquela noite. “Irmãos e irmãs, Deus me deu uma visão. Preciso
que vocês me ajudem a cumpri-la. Deus mandou que eu alugasse um helicóptero,
colocasse um tonel de óleo dentro e ungisse a cidade do Rio de Janeiro”. O
auditório irrompeu em palmas, uma oferta foi levantada e o pastor Roberto
Pires naquela semana embarcou no mais bizarro sobrevôo que o Rio de Janeiro
já teve. Latas de óleo eram derramadas para ungirem a Cidade Maravilhosa.
Respingos melados caíram sobre a avenida Rio Branco, na praia de Copacabana
e sobre alguns dos morros mais violentos da cidade. Fora o inconveniente
oleoso, nada aconteceu; meses depois a violência carioca recrudesceu.
Quarto Episódio
O pastor Carlos Feijó voltou para Curitiba depois de uma semana em um
seminário de batalha espiritual. A equipe que ministrou o curso ensinou-lhe
a “decretar sua cidade para Deus”. Ali aprendeu como identificar os limites
do seu município e declarar que ele pertence a Jesus Cristo. Aprendeu mais:
Se a igreja não souber reivindicar o que pertence ao Senhor, o diabo
continuará com direitos legais sobre vidas, espalhando miséria. O pastor
Carlos passou uma semana indignado consigo mesmo e com os outros pastores.
Por anos não se aperceberam dessa imensa negligência. Foi para casa e orou.
Com lágrimas rolando pelo rosto, se propôs a jejuar. No terceiro dia do
jejum veio-lhe o que também considerou uma brilhante revelação divina. Há
muitos anos aprendera que tanto os leões como os lobos urinam para demarcar
o seu território e impedir a invasão de outros machos. Ele precisava fazer o
mesmo, como legítimo representante de Jesus – o Leão da Tribo de Judá.
Naquela semana, convocou seus parceiros de ministério para saírem pela
madrugada urinando em pontos estratégicos da cidade. Gastaram algumas horas
na empreitada. O comboio de carros percorreu vários quilômetros com muitas
paradas. Beberam litros e litros d’água; precisavam de muita urina para uma
cidade tão grande.
Esses quatro episódios descritos são verdadeiros. Todos patéticos! Realmente
aconteceram nas cidades mencionadas. Apenas os nomes e alguns detalhes são
fictícios. Ilustram bem o que invade as igrejas evangélicas no Brasil.
Entendo que as pessoas têm o direito constitucional de crerem, praticarem ou
pregarem o que quiserem. Entretanto, não deveriam fazer em nome da fé
protestante e evangélica. Muito sangue já foi derramado, muitas vidas
sacrificadas e muitos missionários afadigados para que testemunhássemos
tanta superficialidade.
Além disso, produzem um estrago imensurável em vidas. Muita gente já perdeu
a fé. Qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico, depois que passa a
euforia e o fanatismo, se sentirá envergonhada de um dia haver participado
de ambientes onde imperam tantas tolices. Acabam trilhando o caminho do
cinismo ou da revolta. Ambos muito trágicos.
Torna-se necessário que aconteçam denúncias internas para que o evangelho
não se desfigure em um “outro evangelho”. Se nos calarmos, mancharemos nosso
legado de fé e nos tornaremos culpados por omissão. Quando a igreja deixa de
salgar e passa a ser motivo de chacota, para nada mais serve senão para ser
pisada pelos homens. Há muito joio dentro das igrejas evangélicas e ele não
se parece em nada com o trigo. Pelo contrário, dá-nos vontade de rir e de
chorar ao mesmo tempo. Protestemos, antes que só dê vontade de chorar.
Soli Deo Gloria.
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