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O dia em que Deus
Cumpriu a Sentença dos Réus.
Ricardo Gondim Rodrigues |
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Bilhões de pessoas estavam espalhadas por uma grande planície, diante do
trono de Deus. Alguns do grupo mais da frente conversavam calorosamente. Não
falavam com reverência, mas em aberta beligerância. “Como Deus pode nos
julgar?”, perguntavam. “O que ele sabe sobre o sofrimento?”, gritou uma
loira. Arregaçando a manga de sua blusa, mostrou um número tatuado em um
campo de concentração nazista. “Sofremos medo, açoites, torturas, morte”,
continuou. Em outro grupo, um negro baixou o colarinho. “Que tal isto”?,
exigiu mostrando uma feia queimadura provocada por cordas. “Fui linchado
apenas por ser negro. Sufocamos em navios escravos. Fomos arrancados do
convívio de nossos queridos, trabalhamos debaixo do chicote até que a morte
nos aliviou”.
Grupos semelhantes se articulavam em toda aquela planície. Cada um se
queixava de Deus pelo mal e sofrimento que permitiu no mundo que cle mesmo
criara. “O que Deus sabe sobre o que a humanidade suportou? Como Deus é
feliz por morar no céu. Lá não há lágrimas, medo, fome, ódios. Deus leva uma
vida bem confortável”, afirmavam.
Então cada grupo decidiu enviar um representante diante de Deus; escolhido
pelo que mais sofreu. Havia um judeu, um negro, um marginalizado da Índia,
um bastardo, uma japonesa de Hiroshima, um preso de um campo de concentração
russo, uma mulher africana contaminada com HIV, cujos filhos morreram de
fome.
Antes se reuniram no centro daquela vasta planície para se organizarem.
Chegaram a um consenso. Antes que Deus se qualificasse para julgá-los,
precisaria experimentar o que eles experimentaram. Decidiram sentenciá-lo:
que ele viva na terra como homem.
Mas como era Deus, estabeleceram algumas salvaguardas. Ele não poderia se
valer de seus poderes divinos para se proteger. “Que nasça judeu; que a
legitimidade de sua paternidade seja questionada e que ninguém saiba com
segurança quem foi o seu pai; que lidere uma causa tão justa e tão radical,
que atraia o ódio e a condenação dos poderosos; que a religião oficial se
esforce para eliminá-lo; que tente descrever o que nenhuma pessoa jamais
provou, ouviu ou percebeu; que tente comunicar Deus aos homens; que seja
traído por um dos seus amigos mais queridos; que seja indiciado com provas
falsas; que seja julgado por um júri preconceituoso e que o seu juiz seja um
covarde; que experimente o que é sentir-se completamente abandonado por
todos; que seja torturado e que morra. Mas que sua morte seja a mais
humilhante, e que morra ao lado de ladrões ordinários.
À medida que cada líder anunciava a sua sentença, um murmúrio se espalhou
pela planície. A aprovação parecia unânime! Mas quando o último expressou a
sua sentença, houve um profundo silêncio. Ninguém se atreveu falar, ninguém
se moveu. De repente, todos perceberam: – Deus já cumprira a sentença dos
réus.
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