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A Sacralidade do
Tempo na cosmovisão judaica.
Ricardo Gondim Rodrigues |
A espiritualidade do cristianismo ocidental é muito rasa e crescentemente
utilitária. Em minha experiência pastoral testemunho tantas pessoas
religosas que nada conhecem sobre Deus. Nessas minhas inquietações, procurei
entender um pouco mais a cosmovisão judaica. Percebi que o mundo grego nos
influenciou grandemente e nos subtraiu de muita riqueza espiritual dos
orientais - Jesus pertencia a um mundo oriental.
Conheci a obra de Abraham Joshua Heschel, e apaixonei-me por esse pensador
judeu. Ele foi um rabino que nasceu em Varsóvia de uma família de ilustre
linhagem hassídica. Perdeu o pai ainda criança e desde pequeno estudo com
fervor a Torá, a Cabala e o Hassidismo. Após a Primeira Guerra Mundial o
surto cultural que se propagou pelas comunidades judaicas da Europa o levou
a participar do grupo de poetas de vanguarda Iung Vilne, quando publica a
sua primeira seleção de poemas "O Nome Revelado: Homem". O conhecimento
laico o conzu à Universidade de Berlim onde se doutra e passa ensinar nessa
instituição bem como em Frankfurt. Com a ascenção de Hitler foi deportado
para a Polônia em 1938. Exerceu funções didáticas na Polônia e Londres. Em
1940, imigra para os Estados Unidos e ensina no Hebrew Union College em
Cicinatti. A partir de 1945 até a sua morte foi professor de Ética Judaica e
Misticismo no Jewish Theological Seminary em Nova York. Seu sistema de
pensamento o coloca na escola do existencialismo religioso e toda sua obra
se insere sob a marca do diálogo, com grande influência de Buber, pois para
ele "o homem não está só". Pinkins Peli, estudioso de Heschel, o considera
um profeta da modernidade e diz: "[...] este Rabi jamais deixou nada ao
longo do caminho. Sendo um notável estudante em Berlim não deixou de ser o
fervoroso hassid de Varsóvia. Quando se tornou famoso como porta-voz da
moral e da consciência nos Estados Unidos, a sua palavra se fez ouvir na
Casa Branca e nas manifestações dos negros de Selma, continuou sendo um
filho de seu povo, com o coração posto em Sion. Nos anos 70, convidado pelo
prestigioso instituto cristão Union Theological Seminary a desempenhar o
cargo de professor visitante, começou a sua primeira exposição assim: 'Falo
a vocês em nome de uma comunidade cujo fundador foi Abraão, e o nome de meu
mestre é Moisés [...] Fala a vocês alguém que pôde deixar Varsóvia seis
semanas antes do começo da destruição. O destino de minha viagem foi Nova
Yorque, porém poderia ter sido Auschwitz ou Treblinka. Sou um lenho
resgatado do fogo que calcinou o meu povo. Sou um lenho salvo do fogo aceso
junto ao altar de Satanás'. [...] O âmbito de sua tarefa investigadora foi
imenso e abarca uma ampla gama de disciplinas. Desda A Bíblia, passando pela
análise de diversas escolas do pensamento religioso judaico (A Lei Oral
antravés das Gerações, Os Profetas, A Profecia) a estudo sobre o pensamento
filosófico da Idade Média e o Hassidismo até a descrição da vida dos judeus
da Europa Oriental (A Terra é do Senhor) e o desafio ideológico de Israel
após a Guerra dos Seis Dias (Israel, Um Eco de Eternidade), ao que se deve
acrescentar uma séria de livros dedicados a elucidar facetas candentes do
pensamento judaico (Deus e o Homem, O Schabat, O Significado das Orações).
Heschel foi um santo homem de Deus que morreu dormindo num dia de Sábado.
Incluo aqui a introdução de seu Livro o Schabat sobre a sacralidade do
tempo. Esperando entender um pouco o porquê da superficialidade que crasse o
cristianismo ocidental.
O SCHABAT – seu significado para o homem moderno.
Abraham Joshua Heschel.
A civilização técnica é a conquista do espaço pelo homem. É um triunfo
freqüentemente alcançado pelo sacrifício de um ingrediente essencial da
existência, isto é, o tempo. Na civilização técnica nós gastamos tempo para
ganhar espaço. Intensificar nosso poder no mundo do espaço é o nosso maior
objetivo. No entanto, ter mais não significa ser mais. O poder que
alcançamos no mundo do espaço termina abruptamente na fronteira do tempo.
Mas o tempo é o coração da existência.
Ganhar o controle no mundo do espaço é certamente uma de nossas tarefas. O
perigo começa quando, para ganhar poder no reino do espaço, pagamos com a
perda de todas as aspirações no reino do tempo. Há um reino do tempo em que
a meta não é ter, mas ser; não possuir, mas dar não controlar, mas partilhar;
não submeter, mas estar de acordo. A vida vai mal quando o controle do
espaço, a aquisição de coisas do espaço, torna-se nossa única preocupação.
Nada é mais útil do que o poder, nada é mais terrível. Temos amiúde sofrido
de degradação pela pobreza, agora estamos ameaçados de degradação pelo poder.
Há felicidade no amor ao trabalho, há desgraça no amor ao ganho. Muitos
corações e cântaros quebram-se na fonte do lucro. Ao vender-se como escravo
às coisas, o homem se torna um utensílio que é quebrado na fonte.
A civilização técnica brota primariamente do desejo do homem em submeter-se
e manipular as forças da natureza. A manufatura de ferramentas, a arte da
fiação e do cultivo, a arte da construção de casas, o mister da navegação –
tudo isso tem lugar no espaço que envolve o homem. A preocupação da mente
com as coisas do espaço afeta, até hoje, todas as atividades do homem. Mesmo
religiões são, freqüentemente, dominadas pela noção de que a deidade reside
no espaço, em locais especiais como montanhas, florestas, árvores ou pedras,
que são, portanto, escolhidas como lugares sagrados; a deidade está ligada a
uma terra em particular; santidade é uma qualidade associada a coisas do
espaço, e a questão primordial é: Onde está deus? Há muito entusiasmo pela
idéia de que Deus está presente no universo, mas esta idéia é adotada para
significar sua presença no espaço mais do que no tempo, na natureza, mas do
que na história; como se Ele fosse uma coisa, não um espírito.
Mesmo a religião panteísta é uma religião do espaço: o Supremo Ser é
considerado como sendo o espaço infinito. “Deus sive natura” tem a extensão
ou o espaço como seu atributo, não o tempo; o tempo, para Spinoza, é
meramente um acidente do movimento, um modo de pensar. E seu desejo em
desenvolver uma filosofia “more geométrico”, ao modo da geometria, que é a
ciência do espaço, é significativo de sua inclinação pelo espaço.
A mente primitiva encontra dificuldade em compreender uma idéia sem a ajuda
da imaginação e é no reino do espaço onde a imaginação exerce sua influência.
Dos deuses é preciso ter uma imagem visível; onde não há imagem não há deus.
A reverência pela imagem sagrada, pelo monumento, ou lugar sagrado não é
apenas inerente à maioria das religiões, tendo sido inclusive preservada
pelos homens de todas as épocas, de todas as nações, devotos, supersticiosos
ou até anti-religiosos; todos eles continuam a prestar homenagem a
estandartes e bandeiras, santuários nacionais, a monumentos erigidos em
honra de reis e heróis. Em todo lugar a profanação de santuários sagrados é
considerada um sacrilégio, e o santuário pode tornar-se tão importante que a
idéia que ele representa é destinada ao olvido. O monumento torna-se um
auxiliar da amnésia; os meios anulam o fim. Pois as coisas do espaço estão à
mercê do homem. Embora, por demais sagradas para serem poluídas, elas não
são por demais sagradas para serem exploradas. Para guardar o sagrado, para
perpetuar a presença de deus, a sua imagem é moldada. No entanto, um deus
que pode ser moldado, um deus que pode ser confinado, não é senão uma sombra
do homem.
Todos nós ficamos enfeitiçados pelo esplendor do espaço, pela grandeza das
coisas do espaço. Coisa é uma categoria que permanece pesadamente em nossas
mentes, tiranizando todos os nossos pensamentos. Nossa imaginação tende a
moldar todos os conceitos à sua imagem. Em nossa vida cotidiana seguimos, em
primeiro lugar, o que nossos sentidos nos soletram: o que os olhos percebem
e o que os dedos tocam. Realidade, para nós, é coisidade, e consiste de
substâncias que ocupam o espaço; mesmo Deus é concebido pela maioria de nós
como uma coisa.
O resultado de nossa coisificação é nossa cegueira à toda realidade que
deixa de se identificar como uma coisa, como um fato real. Isto é óbvio em
nosso entendimento do tempo, o qual, sendo desprovido de coisa e de
substância nos aparece como se não tivesse realidade.
De fato, sabemos o que fazer com o espaço, mas não sabemos o que fazer com o
tempo, exceto torná-lo subserviente ao espaço. A maioria de nós parece
trabalhar em consideração às coisas do espaço. Como resultado sofremos de um
temor do tempo profundamente enraizado, e ficamos consternados quando
compelidos a olhar em sua face. O tempo para nós é sarcasmo, um astuto
monstro traiçoeiro com uma mandíbula como uma fornalha, incinerando cada
momento de nossas vidas. Esquivando-nos, entretanto, de enfrentar o tempo
buscamos abrigo em coisas do espaço. As intenções que não podemos executar
nós as depositamos no espaço; as posses se tornam símbolos de nossas
repressões, jubileus de frustrações. Mas as coisas do espaço não são à prova
de fogo; elas apenas acrescentam óleo às chamas. Será que a alegria da posse
representa um antídoto contra o terror pelo tempo que cresce para tornar-se
medo da morte inevitável? As coisas, quando ampliadas, são contrafações da
felicidade, são uma ameaça para nossas próprias vidas; nós somos mais
atormentados do que apoiados pelos Frankensteins das coisas espaciais.
É impossível ao homem furtar-se do problema do tempo. Quanto mais pensamos,
mais compreendemos: nós não podemos conquistar o tempo por meio do espaço.
Nós só podemos dominar o tempo no tempo.
A meta mais elevada da vida espiritual não é acumular riqueza de informação,
mas arrostar momentos sagrados. Em uma experiência religiosa, por exemplo,
não é uma coisa que se impõe ao homem, mas uma presença espiritual. O que é
retido na alma é o momento da introvisão mais do que o lugar onde o ato se
passou. Um momento de intuição é uma sorte, transportando-nos para além dos
confins do tempo medido. A vida espiritual começa a decair quando falhamos
em sentir a grandeza do que é eterno no tempo.
Nossa intenção não é desaprovar o mundo do espaço. Desmerecer o espaço e a
bênção das coisas é desmerecer os trabalhos da criação, os trabalhos que
Deus contemplou e viu “que eram bons”. O mundo não pode ser visto
exclusivamente “sub specie temporis”. Tempo e espaço estão inter-relacionados.
Passar por cima de qualquer deles é ser parcialmente cego. O que nós
contestamos é a capitulação incondicional do homem ao espaço, sua
escravização às coisas. Não devemos esquecer que não é uma coisa que
empresta significação a um momento; é o momento que empresta significação às
coisas.
A Bíblia preocupa-se mais com o tempo do que com o espaço. Ela vê o mundo na
dimensão do tempo. Presta mais atenção às gerações, aos eventos do que aos
países, às coisas; preocupa-se mais com a história do que com a geografia.
Para entender o ensinamento da Bíblia, a pessoa precisa aceitar sua premissa
de que o tempo tem um significado para a vida que é, pelo menos, igual a do
espaço; que o tempo tem uma significação e soberanias próprias.
Não há equivalência para a palavra “coisa” no hebraico bíblico. O termo “davar”,
que no hebraico ulterior veio designar coisa, significa em hebraico bíblico:
fala; palavra; mensagem; relatório; notícias; conselho; pedido; promessa;
decisão; sentença; tema; história; dito; declaração; atividade, ocupação;
atos, bons atos; eventos, modo; maneira; razão; causa; mas nunca “coisa”.
Seria isto um sinal de pobreza lingüística, ou melhor, uma indicação de uma
visão de mundo distorcida, de não igualar a realidade (derivada da palavra
latina “res”, coisa) à coisidade?
Um dos fatos mais importante na história da religião foi a transformação de
festividades agrícolas em comemorações de eventos históricos. As
festividades dos povos antigos estavam intimamente ligadas às estações da
natureza. Celebravam o que acontecia na vida da natureza, nas respectivas
estações. Assim, o valor do dia festivo era determinado pelas coisas que a
natureza produzia ou não. NO judaísmo, a Páscoa, originalmente uma festa
primaveril, tornou-se uma celebração do êxodo do Egito; a Festa das Semanas,
uma antiga festividade de colheita no final da ceifa do trigo (hag hakazir,
Êxodo 23.16; 34.22) converteu-se na celebração do dia em que a Torá foi dada
no Sinai; a festa das Cabana, uma antiga festividade da vindima (hag haasif,
Êxodo 23.16), comemora a morada dos israelitas em cabanas, durante sua
permanência no deserto (Levítico 23.42s.). Para Israel, os acontecimentos
singulares do tempo histórico foram espiritualmente mais significativos do
que os processos repetitivos no ciclo da natureza, muito embora o sustento
físico dependesse desta última. Enquanto as divindades de outros povos
estavam associadas aos lugares ou coisas, o Deus de Israel era o Deus dos
acontecimentos: o Redentor da escravidão, o Revelador da Torá, manifestando-se
a Si mesmo em acontecimentos da história, mais do que em coisas ou lugares.
Assim, a fé no incorpóreo, no inimaginável, nasceu.
O judaísmo é uma religião do tempo visando a santificação do tempo.
Diferentemente do homem propenso para a espacialidade, isto é, aquele para
quem o tempo é invariável, interativo e homogêneo, para quem todas as horas
são iguais, desprovidas de qualidade e conchas vazias, a Bíblia percebe o
caráter diversificado do tempo. Não existem duas horas semelhantes. Cada
hora é única e uma só, dada naquele momento, exclusiva e infinitamente
preciosa.
O judaísmo nos ensina a nos prendermos à santidade no tempo, a nos
vincularmos aos acontecimentos sagrados, a aprender como consagrar
santuários que emergem do magnificente curso de um ano. Os “Schabatot” são
nossas grandes catedrais, e nosso Santo dos Santos é um relicário que nem os
romanos nem os alemães foram capazes de queimar; um relicário que sequer a
apostasia pode facilmente obliterar: o Dia da Expiação. De acordo com os
antigos rabis, não é a observância do Dia da Expiação, mas, o Dia mesmo, a
“essência do Dia”, que, com o arrependimento do homem, expia pelos pecados
do homem.
O ritual judaico pode ser caracterizado como a arte das formas significantes
no tempo, como “arquitetura do tempo”. A maioria de suas observâncias – o
Schabat, a lua nova, as festas, o ano sabático e o ano do jubileu – depende
de uma certa hora do dia ou estação do ano. É, por exemplo, o anoitecer, o
amanhecer ou o entardecer que trazem com eles o chamado para a prece. Os
temas principais da fé jazem no reino do tempo. Lembramos do dia do êxodo do
Egito, do dia em que Israel parou no Sinai, e nossa esperança está na
expectativa de um dia, do fim dos dias.
Em uma obra de arte bem composta uma idéia de destacada importância não é
introduzida casualmente, mas, como um rei em uma cerimônia oficial, ela é
apresentada em um dado momento e de uma forma que trará à luz sua autoridade
e liderança. Na Bíblia as palavras são empregadas com apurado cuidado,
particularmente aquelas que, como pilares de fogo, norteiam o caminho no
vasto sistema do mundo de significado bíblico.
Uma das mais notáveis palavras na Bíblia é “cadosch”, santo; uma palavra que,
mais do que qualquer outra, é representativa do mistério e majestade do
divino. Pois bem, qual teria sido o primeiro objeto santo na história do
mundo? Teria sido uma montanha? Teria sido um altar? De fato, é uma ocasião
única aquela em que a notável palavra “cadosch” é usada pela primeira vez:
no Livro do Gênese, ao final da história da criação. Quão extremamente
significativo é o fato dela ser aplicada ao tempo: “E Deus abençoou o sétimo
dia e fê-lo santo. Não há referência no relato da criação a nenhum objeto no
espaço que teria sido dotado com a qualidade de santidade.
Esta é a diferença radical do costumeiro pensamento religioso. A mentalidade
mítica esperaria que, após o estabelecimento do céu e da terra, Deus criaria
um lugar santificado – uma montanha sagrada ou uma fonte sagrada – sobre a
qual seria erigido um santuário. No entanto, para a Bíblia, segundo parece,
é a santidade no tempo, o Schabat, que vem em primeiro lugar.
Quando a história começou havia somente uma santidade no mundo, a santidade
do tempo. Quando no Sinai a palavra de Deus estava a ponto de ser proferida,
um chamado em prol da santidade no homem foi proclamado: “Tu há de ser
perante mim o povo sagrado”. Foi apenas depois que o povo sucumbiu à
tentação de adorar uma coisa, o bezerro de ouro, que a construção do
Tabernáculo, da santidade no espaço, foi ordenada. A santidade do tempo veio
em primeiro, a santidade do homem em segundo, e a santidade do espaço por
último. O tempo foi abençoado por Deus, o espaço e o Tabernáculo foram
consagrados por Moisés.
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