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Preservando a
herança pentecostal
Ricardo Gondim Rodrigues |
Encantei-me numa das primeiras vezes que visitei uma igreja pentecostal. Fui
a um culto de meio de semana na congregação da Assembléia de Deus do bairro
do Serviluz nas redondezas do porto de Fortaleza. Iluminada com uma luz
branca, parecia uma pérola incrustada no meio da zona das luzes vermelhas. O
prédio pobre e simples ainda despontava como a melhor construção do bairro.
O culto começou com alguns hinos da Harpa Cristã. Como sempre acontece nos
cultos pentecostais, lágrimas e explosões de entusiasmo, entrecortavam o
hino. Depois, os diversos corais foram chamados. Cantaram as crianças, os
jovens e, por último, o coral das mulheres. Não esqueci quando o dirigente
daquela congregação cochichou-me que a regente do coral trabalhou como
cafetina de uma daquelas casas suspeitas. “A maioria das mulheres de nossa
igreja veio da prostituição”, emendou ele. O coral não conseguiu terminar
sua apresentação. Todas as mulheres choravam emocionadas com a letra da
musica. Acabaram falando línguas estranhas e louvando a Deus com grande
intensidade.
Eu que também passara por uma experiência pentecostal recente, achava-me
maravilhado com aquele culto; simples, mas pleno de sinceridade. A igreja de
gente extremamente pobre esbanjava riqueza em sua devoção. O ambiente se
eletrizava com um fervor espiritual enorme. Percebi que ali nada roubava a
dignidade das pessoas, pelo contrário, dava-lhes um sentimento que
pertinência a um reino. Todos se sentiam princesas e príncipes. Para mim
aquele ambiente assemelhava-se a uma reunião da igreja primitiva.
Aquela noite foi decisiva em me fazer querer caminhar com a igreja
pentecostal. Decidi que identificaria meu ministério com aquele povo que
vivenciava Deus com tanta singeleza, mesmo à margem do status quo religioso.
Aquele coral de mulheres me apaixonou pelo mundo pentecostal.
Depois de tantos anos convivendo entre eles, continuo admirando esse
movimento do Espírito que estará completando um século nos primeiros anos
deste novo milênio. A evangelização no Brasil deve muito aos pentecostais.
Desde que os primeiros missionários suecos aportaram em Belém do Pará, e
desde que os primeiros pastores nordestinos migraram para o Rio de Janeiro e
São Paulo o crescimento da igreja nacional ganhou novo ímpeto. Somente a
Assembléia de Deus chegou a representar sessenta e cinco por cento de todos
os evangélicos brasileiros. São poucos os municípios brasileiros em que essa
denominação não tenha plantado uma pequena igreja. Todas pobres, todas
lideradas por leigos e todas independentes financeiramente.
Infelizmente o mundo pentecostal mudou muito. Embora ainda existam
expressões tão bonitas de arrojo, sinceridade e acima de tudo paixão pelo
reino de Deus no universo pentecostal, ventos estranhos e preocupantes vêm
soprando.
Como todos os movimentos, o pentecostalismo precisou se institucionalizar.
Criou estruturas que garantiriam sua permanência. Junto com a
institucionalização vieram a política eclesiástica pequena, os títulos e as
disputas pelos cargos. Criou-se uma elite religiosa. Desenvolveram-se
mecanismos para que não houvesse alternância de poder. Uma gerontocracia
instalou-se e perpetuou-se como mandatária das igrejas.
Os filhos dos pentecostais estudaram e ascenderam socialmente. Junto com
essa escalada vieram as armadilhas que espreitam os novos ricos. Consumismo,
materialismo e a valorização dos bens materiais acima dos espirituais. Assim
os pentecostais tornaram-se o ambiente mais fértil para a teologia da
confissão positiva e da prosperidade. O neopentecostalismo chegou a ofuscar
o legado histórico dos pentecostais clássicos. Os neopentecostais (também
chamados de carismáticos nos Estados Unidos e na Europa) foram para a
televisão e embora ainda numericamente inferiores, tornaram-se mais visíveis.
Hoje, as pessoas confundem os pentecostais com os neopentecostais e nivelam
todos por baixo.
Com um crescimento numérico impressionante os pentecostais passaram a ser
cortejados pelos políticos tanto de esquerda como de direita. Primeiro, os
próprios pentecostais se candidataram a cargos públicos, depois foram
convidados a participarem como parceiros chaves em candidaturas de maior
peso. Para quem era considerado a escória do protestantismo, tanta atenção
acabou transformando-se em novo perigo. Com políticos de toda espécie a
tiracolo, esvaziou-se o discurso profético. De repente, já não se podiam
denunciar as estruturas satanizadas para não ferir suscetibilidades. Os
pentecostais já não se sentiam marginais, mas parte da elite governante (embora
ela continue os desprezando-os e ridicularizando-os).
Os antigos pentecostais provinham de comunidades onde havia pouca liberdade
para que o Espírito Santo rompesse com as molduras teológicas e litúrgicas.
Defendiam o direito de Deus “bagunçar” com os sistemas religiosos humanos.
Depois de quase um século, aquilo que era uma “bagunça” divina foi
estereotipado e passou a ser o “jeito pentecostal”. Eles tentaram engessar o
agir de Deus à sua maneira e novamente o Espírito Santo ficou sem liberdade.
Hoje, algumas das mais tradicionais igrejas evangélicas são pentecostais. E
pior ainda, o neopentecostalismo tentou gerar artificialmente aquele antigo
clima de avivamento espiritual. O resultado é que os cultos do
neopentecostalismo estão repletos de práticas bizarras. Em muitos casos
percebe-se claramente que são esforços humanos de imitar o agir do Espírito.
Ensina-se a falar em línguas, sopram-se sobre as pessoas para que caiam.
Milagres propagandeados quando não houve milagre nenhum. Alastram-se os
pregadores que procuram compensar com gritos uma unção que já não se
experimenta como outrora.
O mundo evangélico enriqueceu muito desde que Seymour, aquele pregador
negro, cego de um olho, liderou os primeiros cultos da Rua Azuza em Los
Angeles. Eles não apenas desbravaram muitas frentes missionárias, como
também cresceram numericamente e salvaram inúmeras pessoas. Trouxeram de
volta a possibilidade de Deus visitar o seu povo com milagres e maravilhas
ao contrário do hermetismo da teologia sistemática fundamentalista.
Transformaram o culto em festa, romperam com a liturgia enlatada das
matrizes missionárias, falaram a língua do povo, porque eram povo. Abriram
espaço para as mulheres, para os negros e para os pobres. Cantaram e
dançaram, fazendo um barulho espontâneo e feliz ao Deus de suas vidas.
Devemos a eles a insistência de que Deus não obedece às dispensações que os
teólogos criaram para Ele. Ensinaram-nos que ele ainda opera milagres,
distribui dons e reveste o seu povo com poder para ser testemunha do Reino
em todas as nações da terra.
Os dilemas que afetam e alteram o perfil do pentecostalismo devem interessar
todo o universo cristão, pois se ele perder o seu vigor, todos empobrecerão
e o cristianismo perderá muito de sua riqueza e da possibilidade de dialogar
com a cultura. Portanto, precisamos orar para que haja um novo avivamento
entre os pentecostais e chamá-los para o diálogo com outros segmentos
evangélicos. Oxigenados com a diversidade do corpo de Cristo crescerão em
sua auto crítica e se manterão saudáveis.
Necessitamos de mais comunidades como aquela que um dia arrancou lágrimas de
meus olhos. Naquela igreja apinhada de vidas transformadas pelo poder do
Evangelho havia um microcosmo do que toda comunidade evangélica precisa ser.
Continuo orando e trabalhando para que ela se multiplique por esse querido
Brasil. Esse é o meu ideal.
Soli Deo Gloria |
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