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Janelas que se fecham
Ricardo Gondim
Os contornos são
grossos, as linhas leitosas. Já não enxergo de perto! Meus olhos parecem
fotografias desajeitadas. Um ruço, uma neblina, uma fumaça branca, desceram
sobre o meu olhar. Estranha vingança essa da natureza! Vejo com certa
nitidez à distância, mas não distingo quase nada quando se tratam de
centímetros.
Testemunho outras
mudanças esquisitas no meu corpo. Crescem pêlos nas minhas orelhas! Próximo
de meio século de existência, já começo a me parecer com um lobisomem.
Tentam me consolar dizendo que isso é normal. À medida que a pele perde sua
textura, o organismo, querendo defender-se, lança mão das nossas origens
primatas, criando essa penugem auricular. Tentam me explicar outras
metamorfoses que me castigam. Não paro de estocar gordura; corro e como bem
menos e ainda assim minha cintura não afina. Afirmam que a sábia mãe
natureza prepara meu organismo para as doenças degenerativas que podem me
roubar todo apetite, posso precisar de um estoque extra de energias para
suportar futuros dias acamados.
Mas qual o sentido
de só se ver bem lá longe? Se nada nos acontece por acaso, deve haver um
porquê para esse impedimento visual. Porque meus olhos viraram binóculos
invertidos?
Suspeito que meus
olhos se recusam a enxergar nitidamente para me defender da minha
decadência. Preciso me afastar de mim mesmo. Por tantos anos vivi almejando
uma estética agora impossível. Nessa última fase da vida não posso continuar
obcecado pela aparência física. Não mais satisfarei as demandas de uma
geração que valoriza apenas a beleza juvenil. O arado das preocupações
sulcam rugas cada vez mais profundas em meu rosto. A fadiga potencializa a
gravidade que arrasta para baixo o que outrora se empinava. Ver esse
processo pode ser doloroso. É melhor olhar bem para outras belezas. Meu
olhos me empurram a querer enxergar o que não precisa do viço físico para me
fazer bonito. Aprenderei que há dimensões de minha vida que não dependem de
músculos bem definidos: ser mais manso, mais compreensivo mais doce, mais
comunicativo, mais íntegro, menos cobiçoso.
Há também a difícil
questão de apreciar a beleza do próximo. Nos últimos anos que me restam aqui
talvez precise contemplar melhor o que os outros possuem de bonito. Passei a
vida inteira concentrado em meu próprio umbigo. Eu via todas aquelas
sujeirinhas que se juntam lá-via, mas me esquecia de limpar.
Dizem que a gente
morre cedo quando pára de olhar o futuro. Quem sabe, o meus olhos já não
consigam ver de perto para que eu não me perca no imediatismo? Certamente,
preciso contemplar horizontes mais longínquos.
Também preciso me
reeducar, aprender que fui criado para voar alto e que minha natureza
pertence a um reino que fica lá longe nas alturas, aprender a olhar com o
olhar das águias, dos falcões, dos abutres que voam muito, muito alto.
Preciso me desgrudar da terra, minha morada por tantos anos. Aqui eu vi bem
de perto. A minha compreensão do que é olhar de cima para baixo não chegava
a dois metros. Minha visão mais alta era da altura dos meus olhos, poucos
centímetros abaixo do topo de minha cabeça. Já, já serei convidado a subir,
precisarei de olhos que me ajudem olhar de muito alto.
Os raios de sol
iluminam nossa alma através dos nossos olhos; eles são os orifícios que
permitem vazar réstias da eternidade. Agora sei porque nesse último grande
marco de minha jornada, minha visão se desfocou. Preciso de olhos de lince
para o que vem de muito longe, do céu. Para enxergar o que é terreno,
temporal e provisório minhas lentes se empoeiraram. Graças a Deus!
Soli Deo Gloria
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