Inquietações imediatas
Recentemente participei de
um encontro de teólogos, embora não seja teólogo. Ali, espicacei a
chamada igreja evangélica brasileira com seus disparates teológicos e
éticos. Outros me acompanharam, igualmente revoltados. Denunciamos as
agendas furadas das igrejas neopentecostais. Um dos participantes chegou
a cogitar a convocação de um Concílio para que se definisse qual é o
genuíno movimento evangélico, herdeiro da Reforma. Esbravejei mais que
todos contra as excrescências dos neopentecostais.
Voltei para casa e comecei a sentir-me um verdadeiro fariseu. Daqueles
que se indignam com um til e uma vírgula da lei que foi quebrada, mas
que faz enormes concessões no essencial.
Inquietei-me por lembrar que já preguei em ambientes em que seria
desconfortável falar contra a injustiça social, que condena milhões a
viverem numa miséria vergonhosa. E, para não perturbar, discursei sobre
assuntos esterilizados, insípidos e que não perturbam a complacência
burguesa. Subiram à tona de minha memória muitas outras ocasiões em que
preferi não balançar muito o barco em que velejei por águas mansas.
Confesso que continuo calado diante dos grandes debates e não me engajo
pelas causas humanas. É aí que confronto a mim mesmo: Será que me
adeqüei ao sistema e acho que já não posso e nem quero mexer em
vespeiros? Sinto-me confortável? Começo a pensar que essas acomodações
éticas não são um desvio apenas de minha própria vida, mas também do
contexto religioso em que vivo. Convivo com uma religião rápida e ágil
para denunciar o que é de menor importância, elástica e lenta para
detectar o que é inconveniente, e sempre silenciosa no profetismo real e
genuíno. Acredito que nem sequer conhecemos o verdadeiro caráter do
ofício profético. A camisa de força da teologia sistemática não me deixa
ser criativo, as cataratas espirituais do dogmatismo cristão já milenar
obscurecem minha visão e o patrulhamento do gueto me ameaça quando quero
pensar com liberdade.
A turma da teologia ortodoxa se indigna com as aberrações
neopentecostais, mas não se ouve dela uma só denúncia contra o
nacionalismo evangélico norte-americano, que abençoou a invasão do
Iraque, acreditando numa das maiores mentiras já contadas em toda a
história da humanidade (onde estão as armas de destruição em massa?).
Essa guerra matou — e ainda matará — muita gente inocente, infelizmente
meros efeitos colaterais de um militarismo beligerante e sem propósito.
Daqueles que deveriam defender a vida, a paz e a verdade não se ouve
nada, percebe-se apenas um silêncio hesitante.
Participo de um meio que denuncia o Benny Hinn e Kenneth Hagin, mas se
cala com o fundamentalismo de direita do status quo evangélico; tememos
confrontar o quintal de famosos como Franklin Graham, Pat Robertson,
John McArthur e Chuck Colson. Quando os militares dominaram a cena
política brasileira, fizemos com eles um acordo tácito. Eles nos
deixavam pregar, realizar nossas campanhas evangelísticas, e nós os
deixávamos em paz, torturando nos porões e enriquecendo as elites. Por
que eu tenho dificuldades de me sentar à mesa dos neopentecostais e não
tenho escrúpulos para participar da roda dos ricos pastores do Primeiro
Mundo, que, sob o manto do conservadorismo teológico, empurram a agenda
da direita conservadora americana? Eles certamente lêem na cartilha do
Bush. A Maioria Moral batalha contra o aborto, contra os homossexuais,
mas defende a pena de morte e apóia o discurso da National Rifle
Association, uma das mais anacrônicas entidades que defendem o uso de
armas.
Será que nos vemos como guardiões da inerrância, vigilantes da ortodoxia
apostólica, contudo perpetuadores de uma religiosidade cada vez mais
desconexa do mundo real, cada vez mais insípida?
A grande verdade é que nós, os evangélicos, continuamos nos
especializando no irrelevante. Nossa agenda não tem o menor
desdobramento na luta contra o preconceito racial ou de gênero. Não
alteramos a sorte de milhões de crianças que vivem nas periferias
fétidas das metrópoles brasileiras. Porém, convocamos mais fóruns para
discutir nossa identidade evangélica e, indignados com aqueles cuja
cartilha teológica difere da nossa, esbravejamos nosso furor farisaico.
Acredito que há enormes defeitos genéticos em nossa identidade; a
cultura que nos formou vinha com anomalias. Nossa cosmovisão nasceu de
uma aberração da natureza espiritual: religião sem alma. Acabo
concluindo: adoeceram minha alma e eu não me dou conta sequer de que
doença sofro...
Soli Deo Gloria.
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