Recuperação
Ricardo Gondim
“Famigerada, terrível,
odiosa”. É assim que tratamos uma ladeira de morte de uns oitocentos
metros e que ironicamente termina em frente à Faculdade de Biologia da USP.
Ela é o batismo de quem quer se considerar um corredor. Aqueles que
conseguem domá-la não temem qualquer outro percurso. Encontram-se
devidamente preparados para as competições. Ressalva a tempo: nessas
competições o único adversário é você mesmo e os quilômetros que separam a
faixa da largada do anúncio da chegada. Os corredores amadores não nutrem
a mínima pretensão de chegar em primeiro lugar, basta completar a prova.
Recordo-me do dia em que
derrotei a famigerada pela primeira vez. Cheguei ao topo com o coração
irado e reclamando. O ar, subitamente rarefeito, não chegava aos músculos,
minhas pernas se embriagaram. Mas depois, treinando para uma maratona,
acabei tirando o aguilhão da odiosa. Não a respeito como antigamente! Já
consegui subí-la por sete vezes consecutivas. Corro e encaro meus desafios
com o mesmo vigor daqueles tempos que ainda não celebrara meus quarenta
anos. Mas, algo vem acontecendo comigo e com o meu corpo, nesta véspera de
celebrar os cinquenta. Para me recuperar do esforço de correr, preciso de
períodos cada vez mais longos de descanso.
Constato que isso não me
acontece só em corridas. Antigamente terminava de pregar um sermão, saía
para jantar com amigos, voltava para casa de madrugada e já na
segunda-feira cedinho encarava qualquer nova aventura. Agora sinto
dificuldade para me levantar da cama. Meu corpo, minha mente, meus
sentimentos me amarram aos lençóis e não me deixam funcionar bem até que o
processo de recuperação aconteça completamente.
Há outros exemplos até
mais constrangedores: do sexo às refeições. A idade me cobra intervalos
mais longos para me recondicionar e me declarar apto novamente. A
princípio nem notei, agora bem apercebido, entristeci. Porque à medida que
envelhecemos, precisamos desses hiatos longos? Há alguma verdade escondida
além do óbvio? Não me satisfaço com a resposta de que o maquinário se
desgastou ou está ultrapassado.
Já sei! Na velhice
precisamos de maiores intervalos para degustar a vida demoradamente. É uma
forma da natureza nos obrigar a não pular apressadamente para uma nova
experiência, sem antes saboreá-la com calma. Na juventude, acabávamos de
viver um romance, experimentar o sexo, saborear uma torta, ver uma pintura,
ouvir uma música, declamar um poema, rir de uma piada, ouvir um sermão e
já estávamos ávidos para mais. Agora não! Nem queremos que venha logo a
próxima experiência. A vida nos obriga a ficar com o seu gosto na boca por
mais tempo. Eu chamava esses hiatos antigamente de recuperação, hoje eu
chamo de felicidade.
Se já não saio de minhas
dores com facilidade, se elas grudam em mim, me obrigam a sofrê-las,
tatuá-las em minhas entranhas, o mesmo acontece com as minhas alegrias. Já
não me despeço delas com rapidez; sei o quanto custam.
Envelhecer não é tão ruim,
como eu imaginava.
Soli Deo Gloria